Olhares descomprometidos, mas interessados, sobre o Marco de Canaveses. Pontos de vista muitas vezes discordantes, excepto no que é essencial. E quando o essencial está em causa, é difícil assobiar para o lado.
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Abr 09
publicado por José Carlos Pereira, às 00:40link do post | comentar

Coutinho Ribeiro recuperou aqui algo de que já falámos anteriormente: saber se a dicotomia esquerda-direita faz sentido quando nos referimos às eleições autárquicas em Marco de Canaveses. Em meu entender, é evidente que não. O arco democrático tem características peculiares na nossa terra.

A longa governação de Avelino Ferreira Torres deixou marcas profundas na sociedade marcoense, nas instituições e nas pessoas. A governação unipessoal, assente numa plataforma de interesses, construiu um poder "absolutista", sem escrutínio efectivo durante muitos anos. A Câmara Municipal confundiu-se com Ferreira Torres, a sua equipa e os seus apaniguados. Os activos circulantes foram a consequência de tudo isto. As populações deixaram-se estimular pelo populismo, pela falsa ideia de proximidade ao poder, pelo verbo fácil e arruaceiro. Ferreira Torres (quase) tudo controlou: os empresários, os clubes e associações, a comunicação social, até alguns dos candidatos da oposição, que sucessivamente se foram subjugando às longas mãos do poder.

Houve quem nunca se tivesse submetido e quem se tivesse insurgido contra esse estado de coisas. E foi nessa fronteira que se delimitou, a meu ver, o arco democrático em Marco de Canaveses. Os que não se conformaram, os que ousaram dizer não, os que mobilizaram meios escassos para erguer a sua voz. Esses democratas estavam no PS, na CDU ou no PSD. Conhecem-se os nomes dos intervenientes políticos, mas há também uns largos milhares de marcoenses que nunca se vergaram.

Os efeitos da governação de 20 anos de Ferreira Torres vão fazer-se sentir por mais alguns anos e, neste quadro, não será das diferenças entre esquerda e direita que se tratará nos tempos mais próximos. O que se avaliará será, acima de tudo, a diferença entre o modo de gerir a coisa pública e de exercer os mandatos políticos por parte dos candidatos. À semelhança ou ao arrepio da "tradição" de Avelino Ferreira Torres. Os programas são discutíveis, mas os princípios não. E, como se comprovou, estas mudanças não podem ser tranquilas.


Ainda é muito cedo para se saber qual a tendência de voto do povo marcuense, mas esta análise feita por José Carlos Pereira é das coisas mais objectivas e consentâneas que tenho lido neste blog.
O que se passa no Marco de Canaveses não é muito diferente do que se passa no resto do país. O povo português tem uma apetência fora do comum para fazer colagens a gente desonesta, prepotente e que domina sem escrúpulos o seu espaço. Penso que é uma questão de postura, talvez até de cobardia, ou medo herdado do tempo do fascismo e ainda bem que ainda existem lutadores que persistem na defesa dos seus direitos, sem medos de represálias.
No Marco, ainda sinto que esse medo continua enraizado na mente das pessoas e arco democrático mantém-se curto e muito pouco dividido. Se o povo marcuense não consegue encontrar no seu meio, em gente da terra, uma pessoa capaz, honesta, cordial e competente para gerir a sua autarquia, então merece levar com Avelino Ferreira Torres por mais 20 anos.
Claro que há outros exemplos autárquicos no país que se assemelham ao Marco e estou a lembrar-me de Braga, mas Mesquita Machado para além de não ser um “caceteiro” fez de Braga uma cidade moderna, cosmopolita e virada para o futuro.
O Marco não pode ser transformado na “quinta” de AFT. Quase um quarto de século de governação, desorganizada e somente virada para uma política unipessoal, chegou e sobrou. É tempo de mudança. AFT não pode divorciar-se do Marco, ir tentar a sua sorte para Amarante e depois de derrotado ser recebido como um herói.
A isto chamo falta de personalidade.
Telmo Ferraz a 21 de Abril de 2009 às 12:45

Caro Telmo Ferraz, concordamos no essencial. Quanto ao exemplo de Braga e de Mesquita Machado, que conheço mal, não temo dizer que todas as longas permanências no poder são perniciosas. Por muito boas que sejam as equipas, os vícios do poder acabam por acomodar os interesses que gravitam à sua volta. De todo o modo, apesar do excesso de betão que se nota por Braga, é bem verdade o que diz. Braga é hoje uma cidade cosmopolita, uma cidade de cultura, um meio empresarial destacado no domínio das novas tecnologias e da economia do conhecimento. A Universidade do Minho desempenhou um papel fulcral e a isso também não foi estranha a acção de Mesquita Machado.

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