Coutinho Ribeiro recuperou aqui algo de que já falámos anteriormente: saber se a dicotomia esquerda-direita faz sentido quando nos referimos às eleições autárquicas em Marco de Canaveses. Em meu entender, é evidente que não. O arco democrático tem características peculiares na nossa terra.
A longa governação de Avelino Ferreira Torres deixou marcas profundas na sociedade marcoense, nas instituições e nas pessoas. A governação unipessoal, assente numa plataforma de interesses, construiu um poder "absolutista", sem escrutínio efectivo durante muitos anos. A Câmara Municipal confundiu-se com Ferreira Torres, a sua equipa e os seus apaniguados. Os activos circulantes foram a consequência de tudo isto. As populações deixaram-se estimular pelo populismo, pela falsa ideia de proximidade ao poder, pelo verbo fácil e arruaceiro. Ferreira Torres (quase) tudo controlou: os empresários, os clubes e associações, a comunicação social, até alguns dos candidatos da oposição, que sucessivamente se foram subjugando às longas mãos do poder.
Houve quem nunca se tivesse submetido e quem se tivesse insurgido contra esse estado de coisas. E foi nessa fronteira que se delimitou, a meu ver, o arco democrático em Marco de Canaveses. Os que não se conformaram, os que ousaram dizer não, os que mobilizaram meios escassos para erguer a sua voz. Esses democratas estavam no PS, na CDU ou no PSD. Conhecem-se os nomes dos intervenientes políticos, mas há também uns largos milhares de marcoenses que nunca se vergaram.
Os efeitos da governação de 20 anos de Ferreira Torres vão fazer-se sentir por mais alguns anos e, neste quadro, não será das diferenças entre esquerda e direita que se tratará nos tempos mais próximos. O que se avaliará será, acima de tudo, a diferença entre o modo de gerir a coisa pública e de exercer os mandatos políticos por parte dos candidatos. À semelhança ou ao arrepio da "tradição" de Avelino Ferreira Torres. Os programas são discutíveis, mas os princípios não. E, como se comprovou, estas mudanças não podem ser tranquilas.