Olhares descomprometidos, mas interessados, sobre o Marco de Canaveses. Pontos de vista muitas vezes discordantes, excepto no que é essencial. E quando o essencial está em causa, é difícil assobiar para o lado.
25
Abr 09
publicado por J.M. Coutinho Ribeiro, às 00:01link do post | comentar

 

Foi há 35 anos. Olhando para o estado do país, parece que, no entanto, alguma coisa falhou.

 


Não tenho resposta para a tua questão mas após alguma reflexão e retrospecção conclui que o 25 de Abril passou na minha vida de uma forma pouco exaltada e até tranquila.
As realidades e perspectivas em relação a esse dia devem ser tão diversas que se tornam impossíveis de contabilizar.
Pessoalmente, vivia num lugar (Melgaço) com características tão especiais que a ditadura pouco me dizia. Melgaço, era um concelho de fronteira (em Espanha também governava um ditador, Franco) e as pessoas em geral viviam melhor que no resto do País. O escudo era mais forte que a peseta, as compras eram feitas em Espanha e as preocupações sociais eram mais na ordem de saber quem conseguia fintar (ou comprar) mais Guardas-fiscais, isto a nível comercial, claro. Bebia coca-cola (proibida em Portugal) como outra coisa qualquer e em geral, vivia-se bem em Melgaço (quer dizer, eu vivia bem e não tinha idade para questionar nada).
Os ecos da ditadura surgiam-me, muito distantes, em conversas dos adultos. Falava-se de uns primos do meu pai, comunistas, e a viver em Lisboa que tinham sido presos e um deles apareceu morto (o relatório alegava suicídio) durante uma detenção pela PIDE. Ou até a sugestão velada de que A, B ou C (um destes senhores, sei que ainda é vivo )eram delatores da PIDE e que por isso se deveria ser cuidadoso com o que se dizia perto deles.
A morte de Salazar foi um dia de festa para mim, não pelo facto em si, mas porque o meu pai tinha sido nomeado pelo Município para representar a Câmara nos funerais de Estado e decidiu levar a família. Mas o meu avô paterno, GNR, chorou que se fartou porque achava que sem Salazar o país ia afundar-se num caos (esta mensagem, percebi mais tarde, era incutida pelo próprio regime).
Sei que no funeral do Salazar me perdi dos meus pais porque me aproximei demasiado da urna, estava curiosa acerca da pessoa que estava a ser homenageada.
A surpresa e a tomada de consciência do que se estava a passar só me atingiu 2 anos após o 25 de Abril. Matriculada no Liceu de Guimarães para continuar os estudos fui confrontada com um grupo de jovens politicamente muito activos e não tendo idade para ser militante, fui simpatizante, muito activa por sinal, do MES. Até cartazes colei. E foi a partir daí, com dezasseis anos, que me tornei uma cidadã com consciência politica e social. O mérito da Revolução, no meu caso, reflectiu-se na forma como depois, comecei a olhar o que rodeava numa perspectiva mais crítica e consciente. Ainda bem para mim, pois a minha forma de ser, (um pouco “desbocada”, convenhamos) se continuássemos em ditadura, só me traria problemas.
Por isso, viva a liberdade de expressão.
Maria Helena a 25 de Abril de 2009 às 13:52

A fome, dizem os mais entendidos, combate-se de forma mais eficaz se em vez de oferecer o peixe ensinarmos a pescar. A oferta do peixe dá resposta à satisfação de uma necessidade fisiológica, mas não resolve o problema em questão – a fome. Mais ainda, se os subsídios resolvessem os problemas dos povos, não havia países pobres. Paradoxalmente, quanto mais subsidiados mais pobres.
Em Abril deram-nos “o peixe” e esqueceram ou faltamos à aula seguinte.
O mar, os rios esta(va)m cá e a arte da pesca já tinha sido inventada.
antonio ferreira a 26 de Abril de 2009 às 01:54

Algo falhou. Sem dúvida. Mas, convém não cair nunca na tentação de regressar ao dia 24 de Abril.
Muita coisa falhou, sim senhor. E continuará a falhar porque os portugueses não têm, de facto, cultura democrática intrínseca. E isso reflecte-se, sobretudo, na nossa classe política e, em muitos casos, empresarial.
Algo falhou, sim. Muito por culpa das juventudes partidárias que não souberam, ou não quiseram, formar novos políticos culturalmente democráticos. E o resultado está aí. Criaram-se homens e mulheres fascinados pelo poder. Poder a qualquer preço, em muitos casos. E, assim, perderam-se as ideologias e os princípios com que Abril sonhou.
Mas, mesmo assim, é bom nunca cair na tentação de esquecer como era Portugal no dia 24 de Abril de 1974. Com guerra, analfabetismo, fechado ao mundo, amordaçado.
Mudar está nas nossas mãos, apesar de tudo.
Um abraço ao Marco 2009
Pedro Bessa a 27 de Abril de 2009 às 11:10

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